Espanta-Pardais era um boneco humilde que vivia no meio da seara.
Tinha dois grandes braços sempre abertos à espera que alguém os fechasse com amizade, um casaco cheio de remendinhos de todas as cores, um cachecol muito comprido e um chapéu preto com uma flor lá no alto.
A única coisa que o Espanta-Pardais queria era poder caminhar na Estrada-Larga.
Palavra que não desejava mais nada! (...)
Às vezes passava o seu amigo Vento e contava-lhe de praias de ondas azulinhas, com pássaros-gaivotas voando sobre os barcos como se fossem lenços a acenar, praias onde os meninos, descalços, a rir, faziam castelos de conchinhas e areia, e onde os barcos dormiam, à tarde, e os pescadores conversavam fumando grandes cachimbos.
Tanta coisa, que o Espanta-Pardais nunca vira, nem podia, por isso, imaginar bem como era.
Outras vezes, era a Dona-Lua-de-cara-redondinha que lhe dava notícias do mundo e, outras ainda, a Cigarra-Poeta e contava coisas bonitas dos lugares da terra onde havia flores e era bom ter asas para espreitar a vida. Mas, porque todas as coisas iam-e-vinham como as ondas do mar que ele nunca vira e, sozinho, ali continuava dias e noites, noites e dias, de vez em quando tinha vontade de chorar. Dizia baixinho, triste, triste, na sua voz sem eco:
– Eu faço tudo o que posso, então não veem? Se não ando por aí, aos saltos, a ajudar um e outro é porque nasci assim com os braços em cruz e esta perna dura que não sabe mexer-se. Também não fui eu que escolhi o meu nome: Espanta-Pardais! A verdade é que não espanto ninguém e muito menos os pássaros. Quando estou mais triste pousam-me no chapéu velho e cantam-me canções.
Maria Rosa Colaço, Espanta-Pardais, 4ª edição
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017
domingo, 12 de fevereiro de 2017
Amigo
"Quero ser o teu amor amigo. Nem demais e nem de menos.
Nem tão longe e nem tão perto.
Na medida mais precisa que eu puder.
Mas amar-te sem medida e ficar na tua vida,
Da maneira mais discreta que eu souber.
Sem tirar-te a liberdade, sem jamais te sufocar.
Sem forçar tua vontade.
Sem falar, quando for hora de calar.
E sem calar, quando for hora de falar.
Nem ausente, nem presente por demais.
Simplesmente, calmamente, ser-te paz.
É bonito ser amor amigo, mas confesso é tão difícil aprender!
E por isso eu te suplico paciência.
Vou encher este teu rosto de lembranças,
Dá-me tempo, de acertar nossas distâncias..."
Fernando Pessoa
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017
Crianças
Como uma criança antes de a ensinarem a ser grande,
Fui verdadeiro e leal ao que vi e ouvi.
Alberto Caeiro, in "Fragmentos"
quarta-feira, 25 de janeiro de 2017
sexta-feira, 6 de janeiro de 2017
Amigo
Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra «amigo».
«Amigo» é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!
«Amigo» (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
«Amigo» é o contrário de inimigo!
«Amigo» é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada.
«Amigo» é a solidão derrotada!
«Amigo» é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
«Amigo» vai ser, é já uma grande festa!
Alexandre O'Neill, in 'No Reino da Dinamarca'
domingo, 1 de janeiro de 2017
Recomeços
Nunca é tarde para novos recomeços, escrever uma nova página ou então uma nova história.
"Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim."
Francisco do Espírito Santo
Voar
terça-feira, 20 de dezembro de 2016
O búzio
Quando eu era pequena, passava às vezes pela praia um velho louco e vagabundo a quem chamavam o Búzio.
O Búzio era como um monumento manuelino: tudo nele lembrava coisas marítimas. A sua barba branca e ondulada era igual a uma onda de espuma. As grossas veias azuis das suas pernas eram iguais a cabos de navio. O seu corpo parecia um mastro e o seu andar era baloiçado como o andar dum marinheiro ou dum barco. Os seus olhos, como o próprio mar, ora eram azuis, ora cinzentos, ora verdes, e às vezes mesmo os vi roxos. E trazia sempre na mão direita duas conchas. Eram daquelas conchas brancas e grossas com círculos acastanhados, semi-redondas e semitriangulares, que têm no vértice da parte triangular um buraco.
O Búzio passava um fio através dos buracos, atando assim as duas conchas uma à outra, de maneira a formar com elas umas castanholas. E era com essas castanholas que ele marcava o ritmo dos seus longos discursos cadenciados, solitários e misteriosos como poemas.
O Búzio aparecia ao longe. Via-se crescer dos confins dos areais e das estradas. Primeiro julgava-se que fosse uma árvore ou um penedo distante. Mas quando se aproximava via-se que era o Búzio. Na mão esquerda trazia um grande pau que lhe servia de bordão e era seu apoio nas longas caminhadas e sua defesa contra os cães raivosos das quintas. A este pau estava atado um saco de pano, dentro do qual ele guardava os bocados do pão que lhe davam e os tostões. O saco era de chita remendada e tão desbotada que quase se tornara branca.
O Búzio chegava de dia, rodeado de luz e de vento, e dois passos à sua frente vinha o seu cão, que era velho, esbranquiçado e sujo, com o pêlo grosso, encaracolado e comprido e o focinho preto. E pelas ruas fora vinha o Búzio com o sol na cara e as sombras trémulas das folhas dos plátanos nas mãos. Parava em frente duma porta e entoava a sua longa melopeia ritmada pelo tocar das suas castanholas de conchas. Abria-se a porta e aparecia uma criada de avental branco que lhe estendia um pedaço de pão e dizia:
- Vai-te embora, Búzio.
Sophia de Mello Breyner Andresen, "Homero", in Contos Exemplares
Palavras para a minha mãe
"mãe, tenho pena. esperei sempre que
entendesses
as palavras que nunca disse e os gestos que
nunca fiz.
sei hoje que apenas esperei, mãe, e esperar
não é suficiente.
pelas palavras que nunca disse, pelos gestos
que me pediste
tanto e eu nunca fui capaz de fazer, quero
pedir-te
desculpa, mãe, e sei que pedir desculpa não é
suficiente.
às vezes, quero dizer-te tantas coisas que
não consigo,
a fotografia em que estou ao teu colo é a
fotografia
mais bonita que tenho, gosto de quando estás
feliz.
lê isto: mãe, amo-te.
eu sei e tu sabes que poderei sempre fingir
que não
escrevi estas palavras, sim, mãe, hei-de
fingir que
não escrevi estas palavras, e tu hás-de
fingir que não
as leste, somos assim, mãe, mas eu sei e tu
sabes."
quarta-feira, 7 de dezembro de 2016
História do Sr. Mar
Deixa contar...
Era uma vez
O senhor Mar
Com uma onda
Com muita onda
E depois?
E depois...
Ondinha vai...
Ondinha vem ...
E depois ...
A menina adormeceu
Nos braços da sua mãe
Matilde Rosa Araújo
terça-feira, 1 de novembro de 2016
sábado, 10 de setembro de 2016
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