O outono preocupa-se primeiro com as vindimas, mas antes dá ainda umas pinceladas douradas nas uvas brancas, púrpura nas pretas, para que o vinho que delas nasça seja delicioso como um néctar. Depois, começa a ocupar-se do arvoredo onde exerce os seus dotes de artista.
Baixa a temperatura, aos poucos, para que os meninos que já estão em aulas se não constipem.
E depois o outono, que além de pintor é um grande maestro, cria uma sinfonia de verdes escuros, castanhos, roxos, vermelhos e dourados na folhagem das árvores.
O outono preocupa-se com o futuro e não quer a beleza do mundo só para si. E porque também gosta do conforto, manda acender as lareiras, diz às árvores para atapetarem os caminhos com as suas folhas caídas e lembra às aves migratórias que podem partir. Então elas despedem-se com muitos pios arrepiados e, a caminho do sul, fazem longas filas que enfeitam o horizonte como uma fita bordada.
O outono gosta de conviver. Por isso ele vem na época das longas conversas e também dos longos silêncios, de qualquer modo um tempo em que as pessoas comunicam não só pelas palavras mas também pelo coração.
Então, pelo S. Martinho, o outono convida os colegas para passarem o dia com ele. O inverno raramente aceita o convite porque tem frio e não lhe apetece sair de casa. Mas a primavera e o verão nunca faltam. É tempo de festa, de comer castanhas e provar o vinho novo e então, só porque eles saíram da porta verde e da porta amarela, o dia acorda primaveril, com uma suave brisa matinal e ao meio - dia está quente como se fosse Agosto.
O ano desta história foi excepcional e o Inverno apareceu com o saco de estrelas e lançou alguns cristais de neve por cima dos telhados. Ficou lindo e de manhã o Verão derreteu-os antes de ir para casa).
O Outono, que tem predilecção por bibliotecas, casacos de malha e crepúsculos suaves, sugere sempre às pessoas que juntem estas três coisas e leiam bons livros, dos quais se lembrarão toda a vida, sobretudo enquanto houver bibliotecas, camisolas de malha e finais de tarde entre o dourado e o lilás.
O Outono gosta de criar uma ambiência especial, luminosa e serena, que faz as pessoas sentirem uma certa quietude na alma.
Talvez seja por isso que os poetas gostam do Outono.
Faria, Rosa Lobato de As Quatro Portas do Céu, Edições ASA
A minha mãe diz sempre que foi por causa do Outono.
Que é sempre assim, quando a areia, o sol, o azul do mar e do céu ficam apenas na nossa memória.
Que as pessoas suportam mal o cheiro a naftalina das camisolas e dos casacos que tiram dos armários, fechados durante tanto tempo. Começam a espirrar, têm alergias e prometem mais uma vez lembrar-se com antecedência que os têm de tirar mais cedo para arejarem.
Então, diz a minha mãe, as pessoas ficam mesmo sem paciência. E gritam. E respondem torto. E têm saudades dos amigos que fizeram e que desapareceram.
E habituam-se mal aos espaços estreitos, aos horários, ao trânsito das ruas, ao telemóvel sempre a tocar uma melodia insuportável mas que têm preguiça de mudar. E – repete muitas vezes a minha mãe – às vezes dizem coisas que não querem. Como se as palavras estivessem cansadas de estar presas e desatinassem boca fora.
E nunca se pode culpar ninguém.
É o Outono, diz a minha mãe.
Nada a fazer. A minha mãe diz sempre que foi por causa do Outono. Mas eu não acredito que o meu pai tenha saído de casa por causa do Outono. Apesar do que diz a minha mãe. Passei rapidamente em revista todas as possíveis asneiras cometidas nesse dia, e na véspera, e não era capaz de encontrar nada que justificasse aquelas palavras e os olhos da minha mãe, subitamente tão castanhos. A minha mãe tem olhos verdes quando está bem disposta, e castanhos quando se zanga. O meu pai costumava dizer que bastava olhar para os olhos dela para saber que palavras iriam sair da sua boca.
– Temos de conversar – repetiu ela nessa tarde.
Nessa noite o meu pai não veio jantar.
Nem na outra.
Nem nas outras que se seguiram. Por causa do Outono, garantia a minha mãe. Por causa dessa tristeza que entra no coração das pessoas quando a chuva se anuncia.
– E quando houver sol, muito sol, o pai volta? – lembro-me de ter perguntado.
Mas a minha mãe não respondeu.
Só os olhos continuaram castanhos e húmidos.
Alice Vieira

