Quando eu era pequena, passava às vezes pela praia um velho louco e vagabundo a quem chamavam o Búzio.
O Búzio era como um monumento manuelino: tudo nele lembrava coisas marítimas. A sua barba branca e ondulada era igual a uma onda de espuma. As grossas veias azuis das suas pernas eram iguais a cabos de navio. O seu corpo parecia um mastro e o seu andar era baloiçado como o andar dum marinheiro ou dum barco. Os seus olhos, como o próprio mar, ora eram azuis, ora cinzentos, ora verdes, e às vezes mesmo os vi roxos. E trazia sempre na mão direita duas conchas. Eram daquelas conchas brancas e grossas com círculos acastanhados, semi-redondas e semitriangulares, que têm no vértice da parte triangular um buraco.
O Búzio passava um fio através dos buracos, atando assim as duas conchas uma à outra, de maneira a formar com elas umas castanholas. E era com essas castanholas que ele marcava o ritmo dos seus longos discursos cadenciados, solitários e misteriosos como poemas.
O Búzio aparecia ao longe. Via-se crescer dos confins dos areais e das estradas. Primeiro julgava-se que fosse uma árvore ou um penedo distante. Mas quando se aproximava via-se que era o Búzio. Na mão esquerda trazia um grande pau que lhe servia de bordão e era seu apoio nas longas caminhadas e sua defesa contra os cães raivosos das quintas. A este pau estava atado um saco de pano, dentro do qual ele guardava os bocados do pão que lhe davam e os tostões. O saco era de chita remendada e tão desbotada que quase se tornara branca.
O Búzio chegava de dia, rodeado de luz e de vento, e dois passos à sua frente vinha o seu cão, que era velho, esbranquiçado e sujo, com o pêlo grosso, encaracolado e comprido e o focinho preto. E pelas ruas fora vinha o Búzio com o sol na cara e as sombras trémulas das folhas dos plátanos nas mãos. Parava em frente duma porta e entoava a sua longa melopeia ritmada pelo tocar das suas castanholas de conchas. Abria-se a porta e aparecia uma criada de avental branco que lhe estendia um pedaço de pão e dizia:
- Vai-te embora, Búzio.
Sophia de Mello Breyner Andresen, "Homero", in Contos Exemplares
terça-feira, 20 de dezembro de 2016
Palavras para a minha mãe
"mãe, tenho pena. esperei sempre que
entendesses
as palavras que nunca disse e os gestos que
nunca fiz.
sei hoje que apenas esperei, mãe, e esperar
não é suficiente.
pelas palavras que nunca disse, pelos gestos
que me pediste
tanto e eu nunca fui capaz de fazer, quero
pedir-te
desculpa, mãe, e sei que pedir desculpa não é
suficiente.
às vezes, quero dizer-te tantas coisas que
não consigo,
a fotografia em que estou ao teu colo é a
fotografia
mais bonita que tenho, gosto de quando estás
feliz.
lê isto: mãe, amo-te.
eu sei e tu sabes que poderei sempre fingir
que não
escrevi estas palavras, sim, mãe, hei-de
fingir que
não escrevi estas palavras, e tu hás-de
fingir que não
as leste, somos assim, mãe, mas eu sei e tu
sabes."
quarta-feira, 7 de dezembro de 2016
História do Sr. Mar
Deixa contar...
Era uma vez
O senhor Mar
Com uma onda
Com muita onda
E depois?
E depois...
Ondinha vai...
Ondinha vem ...
E depois ...
A menina adormeceu
Nos braços da sua mãe
Matilde Rosa Araújo
Subscrever:
Comentários (Atom)


