quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

A estrada larga

Espanta-Pardais era um boneco humilde que vivia no meio da seara. Tinha dois grandes braços sempre abertos à espera que alguém os fechasse com amizade, um casaco cheio de remendinhos de todas as cores, um cachecol muito comprido e um chapéu preto com uma flor lá no alto. A única coisa que o Espanta-Pardais queria era poder caminhar na Estrada-Larga. Palavra que não desejava mais nada! (...) Às vezes passava o seu amigo Vento e contava-lhe de praias de ondas azulinhas, com pássaros-gaivotas voando sobre os barcos como se fossem lenços a acenar, praias onde os meninos, descalços, a rir, faziam castelos de conchinhas e areia, e onde os barcos dormiam, à tarde, e os pescadores conversavam fumando grandes cachimbos. Tanta coisa, que o Espanta-Pardais nunca vira, nem podia, por isso, imaginar bem como era. Outras vezes, era a Dona-Lua-de-cara-redondinha que lhe dava notícias do mundo e, outras ainda, a Cigarra-Poeta e contava coisas bonitas dos lugares da terra onde havia flores e era bom ter asas para espreitar a vida. Mas, porque todas as coisas iam-e-vinham como as ondas do mar que ele nunca vira e, sozinho, ali continuava dias e noites, noites e dias, de vez em quando tinha vontade de chorar. Dizia baixinho, triste, triste, na sua voz sem eco: – Eu faço tudo o que posso, então não veem? Se não ando por aí, aos saltos, a ajudar um e outro é porque nasci assim com os braços em cruz e esta perna dura que não sabe mexer-se. Também não fui eu que escolhi o meu nome: Espanta-Pardais! A verdade é que não espanto ninguém e muito menos os pássaros. Quando estou mais triste pousam-me no chapéu velho e cantam-me canções. 
 Maria Rosa Colaço, Espanta-Pardais, 4ª edição

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Sonhos

Amigo

"Quero ser o teu amor amigo. Nem demais e nem de menos. Nem tão longe e nem tão perto. Na medida mais precisa que eu puder. Mas amar-te sem medida e ficar na tua vida, Da maneira mais discreta que eu souber. Sem tirar-te a liberdade, sem jamais te sufocar. Sem forçar tua vontade. Sem falar, quando for hora de calar. E sem calar, quando for hora de falar. Nem ausente, nem presente por demais. Simplesmente, calmamente, ser-te paz. É bonito ser amor amigo, mas confesso é tão difícil aprender! E por isso eu te suplico paciência. Vou encher este teu rosto de lembranças, Dá-me tempo, de acertar nossas distâncias..." Fernando Pessoa

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Crianças

Como uma criança antes de a ensinarem a ser grande, Fui verdadeiro e leal ao que vi e ouvi. Alberto Caeiro, in "Fragmentos"