Se eu fosse um livro
Se
eu fosse um livro,
Ia
pedir a quem me encontrasse na rua
Para
me levar pra casa.
Se
eu fosse um livro,
Dividiria
com meus leitores
Os
segredos mais antigos.
Se
eu fosse um livro,
Ia
querer ter sempre um lugar reservado
No
quarto mágico de cada criança.
Se
eu fosse um livro,
Ia
pedir às pessoas para não me
Usar
de enfeite na prateleira.
Se
eu fosse um livro,
Saberia
tudo sobre Nova York
E a
Roma Antiga.
Se
eu fosse um livro,
Deveria
ser lido e relido por quem
Em
silêncio, me chamasse “amigo”.
Se
eu fosse um livro,
Não
ia querer saber logo no começo
Como
a história acaba.
Se
eu fosse um livro,
Ia
saber de cor todas as histórias
Que
morassem nas minhas páginas.
Se
eu fosse um livro,
Guardaria
bem guardados
Todos
os segredos que me contassem.
Se
eu fosse um livro,
Nunca
ia sentir pressa
De
ler a palavra “fim”.
Se
eu fosse um livro,
Não
ia gostar que me lessem só por
Obrigação
ou por estar na moda.
Se
eu fosse um livro,
Queria
ser um arranha-céu
Todo
feito de letras e sons.
Se
eu fosse um livro,
Ia
querer que viajassem nas minhas páginas
Até
a ilha de todos os tesouros
Se
eu fosse um livro,
Ia
querer estar em todos os lugares
Onde
pudesse fazer alguém feliz.
Se
eu fosse um livro,
Teria
sempre o perfume suave
De
um dia inesquecível.
Se
eu fosse um livro,
seria
uma janela aberta
para
a imensidão do mar.
Se
eu fosse um livro,
Ia
convidar um poeta para jantar
Sempre
que um poema seu iluminasse a noite.
Se
eu fosse um livro,
Ia
querer ser, antes de mais nada,
Sempre
lido e livre.
Se
eu fosse um livro,
Mesmo
sem gostar de proibir,
Eu
proibiria a palavra “ignorância”.
Se
eu fosse um livro, não ia gostar
Que
alguém fingisse que já me tinha lido,
Só
para ficar bem-visto.
Se
eu fosse um livro,
Ia
ter medo, mais do que de tudo,
Da
terrível palavra “esquecimento”.
Se
eu fosse um livro,
Ia
tornar livre e indomável
O
leitor que me escolhesse.
Se
eu fosse um livro,
Seria
um imenso poema
E
daria às palavras sentidos inesperados.
Se
eu fosse um livro,
Queria
ser uma arma eficaz e doce
Para
matar pra sempre o desejo de guerra.
Se
eu fosse um livro,
Não
ia me importar de ir para uma ilha deserta
Com
um leitor apaixonado.
Se
eu fosse um livro,
Teria
todos os rostos,
Que
o tempo quisesse me dar.
Se
eu fosse um livro,
Ia
querer crescer sem limites
Até
me transformar em uma biblioteca.
Se
eu fosse um livro,
Ia
querer ouvir alguém dizer:
“Este
livro mudou minha vida”.
JOSÉ JORGE LETRIA, Se eu fosse um livro. Pato Lógico Editora, 2011

