sábado, 28 de novembro de 2015

Liberdade

Liberdade é não deixar o ontem afetar o hoje.



As coisas boas chegam com o tempo as melhores subitamente. A liberdade chega quando te libertas do que te faz mal.



quarta-feira, 11 de novembro de 2015

A estação de Outono

No outro dia, o Outono chegou, derrubando as folhas das árvores. O Vento sentia frio, e, para esquentar-se, corria zunindo pelo parque. O Outono trazia consigo uma cauda de nuvens e com elas pintou o céu de cores cinzentas. Não era só a paisagem que se modificava com o correr das estações, como certamente percebeu o culto e talentoso leitor. Também a atitude dos habitantes do porque, em relação ao Gato Malhado, havia sofrido sensível mudança. Não que houvessem deixado de ter-lhe raiva, não que lhe houvessem perdoado os agravos antigos. Mas já não sentiam medo dele, como o provavam as murmurações sobre o seu caso com a Andorinha, murmurações que de tímidos cochichos transformaram-se em obstinado rumor. Recordemos que antes, tremiam todos apenas o Gato Malhado abria o olho. Como explicar então que não mais o temessem, que comentassem quase abertamente seus passeios com a Andorinha?
É que o Gato, durante a Primavera e o Verão, vivera alegre e satisfeito. Não ameaçara os demais viventes, não despedaçara flores com patadas, não encrespara os pêlos do dorso à aproximação de estranhos e não repelira os cães eriçando os bigodes, insultando-os entre dentes. Tornara-se um ser brando e amável, era o primeiro a cumprimentar os outros habitantes do parque, ele que antigamente quase nunca respondia aos medrosos bons-dias que lhe dirigiam.
Aventurar-me-ei mesmo a afirmar que ele cultivou, naquela época, bons e generosos sentimentos.
A verdade é que o Gato continuava com fama de sujeito mau e intratável. Os habitantes do parque, todavia, haviam concluído, ante a actual amabilidade do Gato Malhado que, se bem ele fosse mau, já não era muito perigoso. Devia estar ficando velho, sem forças, e por isso procurava reabilitar-se. Perderam-lhe o medo. (…)
A fama ruim do gato Malhado era antiga e arraigada. Como poderiam eles compreender que o Gato mudara desde que a Andorinha entrara em sua vida? Como entender que sob a casca grossa, sob o pêlo eriçado do Gato pulsava um terno coração?
Tão terno, que aquele primeiro dia de Outono foi encontrar o Malhado escrevendo um soneto. Coberto com um pesado manto de lã (o Gato era muito friorento), contava sílabas nos dedos e procurava rimas num grosso dicionário. Sim, até um soneto ele escreveu.
Não apenas com um manto contra o frio cobria-se o Gato Malhado naquela manhã de lírica inspiração: cobria-se também com o manto do amor. A poesia não está somente nos versos, por vezes ela está no coração, e é tamanha, a ponto de não caber nas palavras.

Jorge Amado O Gato Malhado e Andorinha Sinhá,

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Outono

No dia 22 de Setembro, já com as uvas maduras na videira, o verão vai andando tranquilo para a sua porta amarela, não sem antes cumprimentar o outono que sai nesse dia e é um senhor cheio de sensibilidade (dizem que é pintor) e o verão sente por ele muita amizade e respeito.
O outono preocupa-se primeiro com as vindimas, mas antes dá ainda umas pinceladas douradas nas uvas brancas, púrpura nas pretas, para que o vinho que delas nasça seja delicioso como um néctar. Depois, começa a ocupar-se do arvoredo onde exerce os seus dotes de artista.
Baixa a temperatura, aos poucos, para que os meninos que já estão em aulas se não constipem.
E depois o outono, que além de pintor é um grande maestro, cria uma sinfonia de verdes escuros, castanhos, roxos, vermelhos e dourados na folhagem das árvores.
O outono preocupa-se com o futuro e não quer a beleza do mundo só para si. E porque também gosta do conforto, manda acender as lareiras, diz às árvores para atapetarem os caminhos com as suas folhas caídas e lembra às aves migratórias que podem partir. Então elas despedem-se com muitos pios arrepiados e, a caminho do sul, fazem longas filas que enfeitam o horizonte como uma fita bordada.
O outono gosta de conviver. Por isso ele vem na época das longas conversas e também dos longos silêncios, de qualquer modo um tempo em que as pessoas comunicam não só pelas palavras mas também pelo coração.
Então, pelo S. Martinho, o outono convida os colegas para passarem o dia com ele. O inverno raramente aceita o convite porque tem frio e não lhe apetece sair de casa. Mas a primavera e o verão nunca faltam. É tempo de festa, de comer castanhas e provar o vinho novo e então, só porque eles saíram da porta verde e da porta amarela, o dia acorda primaveril, com uma suave brisa matinal e ao meio - dia está quente como se fosse Agosto.
O ano desta história foi excepcional e o Inverno apareceu com o saco de estrelas e lançou alguns cristais de neve por cima dos telhados. Ficou lindo e de manhã o Verão derreteu-os antes de ir para casa).
O Outono, que tem predilecção por bibliotecas, casacos de malha e crepúsculos suaves, sugere sempre às pessoas que juntem estas três coisas e leiam bons livros, dos quais se lembrarão toda a vida, sobretudo enquanto houver bibliotecas, camisolas de malha e finais de tarde entre o dourado e o lilás.
O Outono gosta de criar uma ambiência especial, luminosa e serena, que faz as pessoas sentirem uma certa quietude na alma.
Talvez seja por isso que os poetas gostam do Outono.

Faria, Rosa Lobato de As Quatro Portas do Céu, Edições ASA
 
 
“Canção de Outono”

A minha mãe diz sempre que foi por causa do Outono.
Que é sempre assim, quando a areia, o sol, o azul do mar e do céu ficam apenas na nossa memória.
Que as pessoas suportam mal o cheiro a naftalina das camisolas e dos casacos que tiram dos armários, fechados durante tanto tempo. Começam a espirrar, têm alergias e prometem mais uma vez lembrar-se com antecedência que os têm de tirar mais cedo para arejarem.
Então, diz a minha mãe, as pessoas ficam mesmo sem paciência. E gritam. E respondem torto. E têm saudades dos amigos que fizeram e que desapareceram.
E habituam-se mal aos espaços estreitos, aos horários, ao trânsito das ruas, ao telemóvel sempre a tocar uma melodia insuportável mas que têm preguiça de mudar. E – repete muitas vezes a minha mãe – às vezes dizem coisas que não querem. Como se as palavras estivessem cansadas de estar presas e desatinassem boca fora.
E nunca se pode culpar ninguém.
 É o Outono, diz a minha mãe.
Nada a fazer. A minha mãe diz sempre que foi por causa do Outono. Mas eu não acredito que o meu pai tenha saído de casa por causa do Outono. Apesar do que diz a minha mãe.                              Passei rapidamente em revista todas as possíveis asneiras cometidas nesse dia, e na véspera, e não era capaz de encontrar nada que justificasse aquelas palavras e os olhos da minha mãe, subitamente tão castanhos. A minha mãe tem olhos verdes quando está bem disposta, e castanhos quando se zanga. O meu pai costumava dizer que bastava olhar para os olhos dela para saber que palavras iriam sair da sua boca.
– Temos de conversar – repetiu ela nessa tarde.
Nessa noite o meu pai não veio jantar.
Nem na outra.
Nem nas outras que se seguiram. Por causa do Outono, garantia a minha mãe. Por causa dessa tristeza que entra no coração das pessoas quando a chuva se anuncia.
– E quando houver sol, muito sol, o pai volta? – lembro-me de ter perguntado.
Mas a minha mãe não respondeu.
Só os olhos continuaram castanhos e húmidos.
Alice Vieira


















quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Sonhos

Pelo sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia a dia.
Chegamos? Não chegamos?
– Partimos. Vamos. Somos.



Sebastião da Gama


segunda-feira, 27 de julho de 2015

Mãe, conta-me uma história


http://joaninhaplatinada.blogspot.pt/2010/07/divulgacao-mae-conta-me-uma-historia.html



Conta-me histórias

Quando eu era pequena, os campos estavam cheios de flores. Não me lembro dos dias de chuva. Só me lembro de uma grande clareira onde os gafanhotos saltavam e sei que havia uma ribeira perto.
Eu tinha 12 anos e tinha um namorado. Não me recordo do seu nome, mas sei que era meu namorado porque um dia quando brincávamos (e éramos muito crianças) só ele soube apanhar e soube oferecer-me uma flor.
No dia seguinte, trazia uma roda de borracha, um pneu autêntico e minúsculo de um dos seus carros de corrida.
Era tão pequeno que cabia na palma da minha mão, mas os sulcos de pneu verdadeiro fascinaram-me.
Eu não disse que o queria, não disse sequer que o achava bonito. Mesmo assim, ele deu-mo:
 - Toma, é para ti.
 Deu-me uma flor e depois um pneu. Então eu pensei que a amizade era uma coisa muito bela. Queria dar-lhe também – o quê? – uma erva, uma pedra, o quê?
Pequenos objetos que afinal ele também podia apanhar, mas que talvez oferecidos por mim lhe parecessem mais belos.
 Perguntei-lhe: - O que queres?
 - Queria que me contasses uma história.
 Eu sabia muitas histórias. Umas, de as ter ouvido; outras, de as ter imaginado.
Mas receava que alguém já lhas tivesse contado. Então comecei a modificar, a transformar as histórias minhas conhecidas, na esperança de que ele não as reconhecesse.
 - É diferente, essa tua história. Gostei dela. Sabes mais?
 Eu não sabia mais. Ou melhor, sabia muitas, muitas porque me era sempre possível inventar. Não me lembro de quantas contei.

Menéres, Maria Alberta, A Chave Verde ou os Meus Irmãos, Edições ASA

 (texto com supressões)