segunda-feira, 27 de julho de 2015

Conta-me histórias

Quando eu era pequena, os campos estavam cheios de flores. Não me lembro dos dias de chuva. Só me lembro de uma grande clareira onde os gafanhotos saltavam e sei que havia uma ribeira perto.
Eu tinha 12 anos e tinha um namorado. Não me recordo do seu nome, mas sei que era meu namorado porque um dia quando brincávamos (e éramos muito crianças) só ele soube apanhar e soube oferecer-me uma flor.
No dia seguinte, trazia uma roda de borracha, um pneu autêntico e minúsculo de um dos seus carros de corrida.
Era tão pequeno que cabia na palma da minha mão, mas os sulcos de pneu verdadeiro fascinaram-me.
Eu não disse que o queria, não disse sequer que o achava bonito. Mesmo assim, ele deu-mo:
 - Toma, é para ti.
 Deu-me uma flor e depois um pneu. Então eu pensei que a amizade era uma coisa muito bela. Queria dar-lhe também – o quê? – uma erva, uma pedra, o quê?
Pequenos objetos que afinal ele também podia apanhar, mas que talvez oferecidos por mim lhe parecessem mais belos.
 Perguntei-lhe: - O que queres?
 - Queria que me contasses uma história.
 Eu sabia muitas histórias. Umas, de as ter ouvido; outras, de as ter imaginado.
Mas receava que alguém já lhas tivesse contado. Então comecei a modificar, a transformar as histórias minhas conhecidas, na esperança de que ele não as reconhecesse.
 - É diferente, essa tua história. Gostei dela. Sabes mais?
 Eu não sabia mais. Ou melhor, sabia muitas, muitas porque me era sempre possível inventar. Não me lembro de quantas contei.

Menéres, Maria Alberta, A Chave Verde ou os Meus Irmãos, Edições ASA

 (texto com supressões)

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