quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Livros e poemas


Se eu fosse um livro



Se eu fosse um livro,
Ia pedir a quem me encontrasse na rua
Para me levar pra casa.

Se eu fosse um livro,
Dividiria com meus leitores
Os segredos mais antigos.

Se eu fosse um livro,
Ia querer ter sempre um lugar reservado
No quarto mágico de cada criança.

Se eu fosse um livro,
Ia pedir às pessoas para não me
Usar de enfeite na prateleira.

Se eu fosse um livro,
Saberia tudo sobre Nova York
E a Roma Antiga.

Se eu fosse um livro,
Deveria ser lido e relido por quem
Em silêncio, me chamasse “amigo”.

Se eu fosse um livro,
Não ia querer saber logo no começo
Como a história acaba.

Se eu fosse um livro,
Ia saber de cor todas as histórias
Que morassem nas minhas páginas.

Se eu fosse um livro,
Guardaria bem guardados
Todos os segredos que me contassem.

Se eu fosse um livro,
Nunca ia sentir pressa
De ler a palavra “fim”.

Se eu fosse um livro,
Não ia gostar que me lessem só por
Obrigação ou por estar na moda.

Se eu fosse um livro,
Queria ser um arranha-céu
Todo feito de letras e sons.

Se eu fosse um livro,
Ia querer que viajassem nas minhas páginas
 Até a ilha de todos os tesouros

Se eu fosse um livro,
Ia querer estar em todos os lugares
Onde pudesse fazer alguém feliz.

Se eu fosse um livro,
Teria sempre o perfume suave
De um dia inesquecível.

Se eu fosse um livro,
seria uma janela aberta
para a imensidão do mar.

Se eu fosse um livro,
Ia convidar um poeta para jantar
Sempre que um poema seu iluminasse a noite.

Se eu fosse um livro,
Ia querer ser, antes de mais nada,
Sempre lido e livre.

Se eu fosse um livro,
Mesmo sem gostar de proibir,
Eu proibiria a palavra “ignorância”.

Se eu fosse um livro, não ia gostar
Que alguém fingisse que já me tinha lido,
Só para ficar bem-visto.

Se eu fosse um livro,
Ia ter medo, mais do que de tudo,
Da terrível palavra “esquecimento”.

Se eu fosse um livro,
Ia tornar livre e indomável
O leitor que me escolhesse.

Se eu fosse um livro,
Seria um imenso poema
E daria às palavras sentidos inesperados.

Se eu fosse um livro,
Queria ser uma arma eficaz e doce
Para matar pra sempre o desejo de guerra.

Se eu fosse um livro,
Não ia me importar de ir para uma ilha deserta
Com um leitor apaixonado.

Se eu fosse um livro,
Teria todos os rostos,
Que o tempo quisesse me dar.

Se eu fosse um livro,
Ia querer crescer sem limites
Até me transformar em uma biblioteca.

Se eu fosse um livro,
Ia querer ouvir alguém dizer:
“Este livro mudou minha vida”.


JOSÉ JORGE LETRIA, Se eu fosse um livro. Pato Lógico Editora, 2011 


quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Mar e mar

No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
E os animais são flores.

Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.

Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.

Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.

Sophia de Mello Breyner Andresen


Janelas e poemas

E porque sim...

sexta-feira, 9 de junho de 2017

A vida

A vida pode até te derrubar, mas é você quem escolhe a hora de se levantar.

Mr. Han - Karate Kid (2010)



As montanhas da vida não existem apenas para que você chegue no topo, mas para que você aprenda o valor da escalada.


segunda-feira, 5 de junho de 2017

Ainda sonhos

Pelo sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia a dia.
Chegamos? Não chegamos?
– Partimos. Vamos. Somos.

(Sebastião da Gama)





“Eles não sabem que o sonho
É uma constante da vida
(…)
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.
António Gedeão


sexta-feira, 2 de junho de 2017

A casa das dunas

Era uma vez uma casa branca nas dunas, voltada para o mar. Tinha uma porta, sete janelas e uma varanda de madeira pintada de verde. Em roda da casa havia um jardim de areia onde cresciam lírios brancos e uma planta que dava flores brancas, amarelas e roxas.
Nessa casa morava um rapazito que passava os dias a brincar na praia.
Era uma praia muito grande e quase deserta onde havia rochedos maravilhosos.
Mas durante a maré alta os rochedos estavam cobertos de água. Só se viam as ondas que vinham crescendo do longe até quebrarem na areia com barulho de palmas. Mas na maré vazia as rochas apareciam cobertas de limo, de búzios, de anémonas, de lapas, de algas e de ouriços. Havia poças de água, rios, caminhos, grutas, arcos, cascatas. Havia pedras de todas as cores e feitios, pequeninas e macias, polidas pelas ondas. E a água do mar era transparente e fria. Às vezes passava um peixe, mas tão rápido que mal se via.


Histórias da terra e do mar

A casa do mar 
Havia uma casa construída numa duna que se encontrava isolada de todas as outras. Era feita de pedra e cal e estava virada para o mar. No andar de cima da fachada há três janelas e uma varanda com grades de madeira. No andar de baixo há três janelas e uma porta. A porta, as janelas e as grades da varanda estão pintadas de verde. No chão, ao longo da parede, há um passeio que separa a casa da areia. Para além das dunas, a praia estende-se a todo o comprimento da costa e na areia observam-se búzios, conchas e outras coisas trazidas pelo mar. As traseiras da casa dão para um jardim inculto com um poço no meio e o chão está coberto de pequenas pedras soltas. A roupa lavada, seca ao sol presa num arame. O jardim é limitado por três muros e no fundo, há uma cancela que dá para uma rua deserta. Do lado poente do jardim, avista-se a sul uma cidade. E entre a casa e a cidade, estendem-se as dunas onde crescem os lírios selvagens.
 Nas gavetas, a roupa cheira a maresia e os espelhos reflectem os dias. Os móveis são escuros e finos, o chão esfregado e as paredes caiadas.  Quem entra pelo lado de trás da casa, entra num corredor

A Saga


Este conto narra a história de Hans, um rapaz de 14 anos que sonhava em navegar para Sul num navio, sendo o seu capitão. Hans vivia no interior da ilha de Vig, no mar do Norte, com a sua família: o pai Sören, a mãe Maria e a irmã Cristina. Certo dia, Sören chamou Hans para lhe comunicar que o ia mandar estudar para Copenhaga, com o intuito de impedir o seu filho de seguir o seu sonho.  Sören não concordava com o sonho de Hans, pois os seus irmãos mais novos, Gustav e Niels, tinham morrido num naufrágio. Como viu que o seu pai não o apoiava, Hans decidiu fugir num cargueiro inglês, Angus. Assim, alistou-se como grumete, mas, após a sua primeira paragem, abandonou o navio, pois tinha sido chicoteado pelo seu capitão. Hans, sozinho numa cidade desconhecida, caminhou durante quatro dias, até que conheceu Hoyle. Este armador e negociante inglês acolheu-o, tratou-o como um filho e fez dele, aos 21 anos, capitão de um dos seus navios. Após várias viagens, que Hans contava por carta à sua mãe, Hoyle adoeceu, tornando-o seu sócio e confiando-lhe todos os seus negócios. Hans, agora um dos notáveis da burguesia local, casou-se e teve sete filhos, tendo, no entanto, o primeiro morrido. Alguns anos mais tarde, Hans apercebeu-se de que a sua fuga tinha sido em vão, e sentiu remorsos por deixar a família. Quando adoeceu, antes de  morrer, pediu que construíssem um navio naufragado em cima da sua sepultura. Este estranho pedido foi concretizado, tornando-se num dos monumentos mais famosos da cidade. Reza a lenda que, em dias de temporal, Hans navega nele para Norte, rumando a Vig.


terça-feira, 18 de abril de 2017

Olhares

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...

Creio no Mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...

Alberto Caeiro 




quinta-feira, 30 de março de 2017

Cães, ainda ...

John e Jenny são dois jovens apaixonados que se decidem casar. Vivem uma vida sem grandes preocupações e são os dois repórteres.
Logo após o casamento, John e Jenny escapam do inverno rigoroso de Michigan, e vão morar numa casa no sul da Flórida, onde são contratados como repórteres de jornais concorrentes.

Quando John sente que Jenny deseja ter um filho, um colega de trabalho, sugere que adotem um cão para ver se realmente estão preparados para se tornarem pais. De uma ninhada de labradores amarelos, John e Jenny escolhem adotar Marley (nome escolhido em homenagem ao cantor de reggae Bob Marley), uma bola amarela de pelo que rapidamente se transforma num labrador enorme de 43 quilos. Marley babava-se todo por cima das visitas, abocanhava os sapatos, arrombava portas, roubava roupa feminina e de nada lhe valeram os tranquilizantes receitados pelo veterinário. No entanto era muito dócil e fiel aos seus donos.


O casal tenta levar o cão a aulas de adestramento mas quando Marley se recusa a obedecer qualquer ordem ele é expulso das mesmas.
Alguns anos depois, Jenny resolve ter um filho, porém perde o bebé, e começa a entrar em depressão. Então o casal vai viajar e deixa o cão na casa de amigos. Durante a viagem Jenny engravida, e nove meses depois nasce Patrick.
Nos anos seguintes Jenny tem Conor e a pequena Collen, e Marley vigia as crianças e cuida deles,  apesar de roubar comida do prato das mesmas na hora do almoço.
Ao completar 13 anos de vida, Marley começa a ter problemas no quadril e de  audição. Durante esses anos, o cão nunca deixou de esperar por John à porta. John compreende então que é tempo de o cão descansar, pega em Marley e leva-o ao veterinário. A única opção era sedá-lo, já que este era muito velho para fazer uma cirurgia. 
E assim, Marley foi sedado enquanto dormia, e morreu sem dor e feliz ao lado do dono.

“Marley & Eu: A vida e o amor do pior cão do mundo", John Grogan

quarta-feira, 29 de março de 2017

Cães e gatos

"Meu nome é Caidé e sou, segundo me dizem, um cocker de muito bom parecer.
Cocker é nome de família, família inglesa, aliás, embora os meus donos entendam quecocker é uma raça de cão a que eu pertenço. Podia desmenti-los e argumentar que,sendo a minha mãe uma cocker e o meu pai outro tanto, deles herdei o nome defamília ou o apelido. E a raça? Naturalmente, raça de cão, como me grita a porteira cádo prédio, quando se zanga.
Chamo-me, portanto, Caidé, Caidé, sem mais nada, se bem que merecesse, cá nomeu entender, títulos – como direi? – títulos com mais pompa. Isso com mais pompa,com mais nobreza, com mais distinção. Mas não pensaram assim os meus donos…
– Fica Caidé – decidiu a minha dona, pondo fim a uma disputa em que se tinham cruzado no ar, sobre a minha dócil cabeça de cachorrinho de leite, os nomes mais estapafúrdios,mais patetas, mais ridículos, que já alguma vez os humanos, os mais malucosdos humanos, em dia de aselhice inventaram.
E Caidé fiquei. Para um cocker ilustre, com pais, avós, bisavós carregados de prémios, ganhos em exposições caninas, das que dão fama e honra aos canídeos que nela participem, Caidé não será, realmente, o nome que mais convém, mas que remédio senão conformar-me…
(…)

Eu, Caidé Cocker ou só Caidé, para amigos, tenho participado em várias e curiosas aventuras. Vou narrá-las o melhor que sei, com toda a franqueza. Espero, no fim, os vossos juízos. Ora tomem atenção.
Foi, como calculam, um caso de naufrágio, com alguns riscos e alguns transtornos…
Passou-se também no tal jardim, onde às vezes vou com a minha dona. Foi ao fim da tarde. No jardim há um pequeno lago com um repuxo ao meio, quase sempre sem repuxo. Enquanto a minha dona descansa, sentada num banco do jardim, a ler, eu, nas minhas voltas, nunca perco a ocasião de ir até à beira do laguinho mirar-me. Gosto de me ver refletido na água, focinho bonito, orelhas pendentes e felpudas, olhos de amêndoa doce… Vaidades."

António Torrado, As aventuras de Caidé, Civilização Editora



James Bowen viveu muitos anos nas ruas de Londres lutando contra a dependência das drogas e tentando encontrar um meio de resolver a sua vida. Devido a todos os problemas que possuía, a última coisa que ele precisava  era de um animal de estimação.
Foi no Inverno, que James encontrou um gato de rua laranja nos corredores do prédio em que residia. Por conviver com felinos por grande parte de sua vida, James resolve acolher o animal até ele estar forte novamente para voltar para sua vida nas ruas.

Mas à medida que os dias passam, o pequeno felino laranja não demonstra sinais de querer ir embora dali. Intrigado, James resolve deixar o gato ficar, até a hora que o mesmo decida seguir o seu caminho. Porém, o gato segue-o por todo o lado e começa-se a formar uma forte amizade entre ames e o seu novo companheiro felino Bob que se tornam inseparáveis.

"Estava sozinho e, por mais estranho e insondável que isso possa parecer para a maioria das pessoas, a heroína era minha amiga"

 "Deram-me um monte de oportunidades, às vezes a cada dia. Por um longo tempo, falhei em não agarrar nenhuma delas, mas depois, no início da primavera de 2007, isso finalmente começou a mudar. Foi quando fiz amizade com Bob."



"É uma tarde de outono em Covent Garden, Londres. Trabalhadores correm para o almoço, turistas brotam de todos os lados e clientes entram e saem das lojas. No meio de tudo isso está um gato. Usando um lenço vistoso Union Jack à volta do pescoço e rodeado por uma multidão de 30 espectadores de boca aberta, Bob, o gatinho cor de laranja, sorri — é, sorri — timidamente. Próximo a ele, está o seu dono James Bowen, com seu violão surrado, a cantar. Então, ele para de tocar e inclina-.se em direcção a Bob: “Vamos, Bob, cumprimente!”, diz. Bob mexe os bigodes, levanta uma pata e estende-a para James. A multidão assobia. Não é todo dia que se vê um gato sentado, calmamente, no centro de Londres, aparentemente sem se preocupar com o barulho das sirenes, os carros passando e todo aquele movimento — mas Bob não é um gato comum..."



Ler é


Ler é viajar sem sair do lugar, voar sem ter asas, caminhar sem tirar os pés do chão, sonhar acordado, navegar em um mar de palavras, soltando a imaginação …

Alice Ferreira