Elias Bonfim achava que o seu pai tinha morrido de enfarte, antes mesmo de ele nascer. Mas quando fez 12 anos, a sua avó contou-lhe a verdadeira história. O seu pai, Vivaldo Bonfim, amava a literatura e um dia entrou num livro e nunca mais voltou.
“Uma biblioteca é um labirinto. Não é a primeira vez que me perco em uma. Eu e meu pai temos isto em comum. Penso que foi o que lhe aconteceu. Ficou perdido no meio das letras, dos títulos, perdido no meio de todas as histórias que lhe habitavam a cabeça. Porque nós somos feitos de histórias, não é de DNA e códigos genéticos, nem de carne e músculos ou de pele e cérebro. E sim de histórias. Meu pai, tenho certeza, perdeu-se nesse mundo, e agora ninguém consegue interromper sua leitura.
Numa de minhas tardes passadas no sótão, li um conto sobre um labirinto que é deserto, de autoria de um escritor argentino chamado Borges. Há inúmeros lugares onde um ser humano pode se perder, mas não há nenhum tão complexo como uma biblioteca. Mesmo um livro solitário é um local capaz de nos fazer errar, de fazer que nos percamos. Era nisso que pensava enquanto me sentava no sótão entre tantos livros.” (p.24)
Afonso Cruz, Os livros que devoraram o meu pai
"Era uma vez uma menina chamada Mina.
Se procurassem o significado do seu nome, descobririam que significa “peixe” em antigo sânscrito.
Mas Mina não sabia, porque nunca procurava o significado de nada em lado nenhum.
MINA DETESTAVA LER E DETESTAVA LIVROS
Mas os livros estavam espalhados por toda a casa. Não apenas nas prateleiras e nas mesinhas - de - cabeceira, onde normalmente há livros, mas em todos os lugares onde geralmente não há livros.
E o pior de tudo era que os pais da Mina estavam sempre a trazer MAIS livros. Eles compravam, traziam livros da Biblioteca e encomendavam por catálogo.
Liam livros ao pequeno-almoço, ao almoço e ao jantar.
E quando os pais lhe tentavam ler um livro, ela tapava os ouvidos e gritava:
- EU DETESTO LIVROS!
Havia provavelmente um só ser no Mundo que mais do que a Mina, detestava livros. Era o seu gato Max, isto porque quando era gatinho caiu-lhe um atlas em cima da cauda.
Desde então o gato procurava ficar em cima dos livros em vez de ficar debaixo deles.
Uma manhã, depois de ter tirado todos os livros do lavatório para lavar os dentes, Mina foi à cozinha para preparar o pequeno - almoço para si e para o Max.
12. - Max, o pequeno - almoço está pronto!
13. O Max não aparecia.
(…)
Ela procurou, mas só encontrou livros…
Subitamente ouviu…
- MIIIIIAAAAUUUUU!!!!!!!!
Ela correu para a sala de jantar e lá estava ele, no cimo da pilha de livros mais alta da casa, sem conseguir descer.
Esta pilha de livros era formada por todos os livros que os pais estavam sempre a comprar-lhe e que ela sempre se recusava a ler.
No fundo da pilha estavam grandes contos ilustrados, do tempo em que a Mina era bebé. No meio havia livros com o alfabeto. Em cima, ao mesmo nível do tecto, havia contos de fadas e histórias de aventuras. Estavam todos cobertos de pó.
19. De início, foi fácil subir porque os livros tinham capa dura. Mas quando a Mina chegou aos livros de capa mole, faltou-lhe o equilíbrio e começou a escorregar.
CATRAPUM! Os livros foram pelos ares.
À medida que os livros iam caindo iam acontecendo coisas estranhas. Pessoas e animais começaram a cair das páginas e a rebolar pelo chão.
Havia príncipes e princesas, fadas, rãs, lobos, os três porquinhos, os trolls… O Humpty Dumpty foi pelos ares e partiu-se ao meio… Havia elefantes, imperadores, avestruzes e uma variedade de macacos emaranhados uns nos outros.
E ainda havia coelhos por todo o lado! Eram selvagens, brancos, de chapéu…
Mina sentou-se no meio daquilo tudo e ficou surpreendida. - Eu pensava que os livros estavam cheios de palavras, não de coelhos! Era enorme a confusão!"
Manjusha Pawagi, A menina que detestava livros


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