quarta-feira, 29 de março de 2017

Livros

Elias Bonfim achava que o seu pai tinha morrido de enfarte, antes mesmo de ele nascer. Mas quando fez 12 anos, a sua avó contou-lhe a verdadeira história. O seu pai, Vivaldo Bonfim, amava a literatura e um dia entrou num livro e nunca mais voltou. “Uma biblioteca é um labirinto. Não é a primeira vez que me perco em uma. Eu e meu pai temos isto em comum. Penso que foi o que lhe aconteceu. Ficou perdido no meio das letras, dos títulos, perdido no meio de todas as histórias que lhe habitavam a cabeça. Porque nós somos feitos de histórias, não é de DNA e códigos genéticos, nem de carne e músculos ou de pele e cérebro. E sim de histórias. Meu pai, tenho certeza, perdeu-se nesse mundo, e agora ninguém consegue interromper sua leitura. Numa de minhas tardes passadas no sótão, li um conto sobre um labirinto que é deserto, de autoria de um escritor argentino chamado Borges. Há inúmeros lugares onde um ser humano pode se perder, mas não há nenhum tão complexo como uma biblioteca. Mesmo um livro solitário é um local capaz de nos fazer errar, de fazer que nos percamos. Era nisso que pensava enquanto me sentava no sótão entre tantos livros.” (p.24) Afonso Cruz, Os livros que devoraram o meu pai
"Era uma vez uma menina chamada Mina. Se procurassem o significado do seu nome, descobririam que significa “peixe” em antigo sânscrito. Mas Mina não sabia, porque nunca procurava o significado de nada em lado nenhum. MINA DETESTAVA LER E DETESTAVA LIVROS Mas os livros estavam espalhados por toda a casa. Não apenas nas prateleiras e nas mesinhas - de - cabeceira, onde normalmente há livros, mas em todos os lugares onde geralmente não há livros. E o pior de tudo era que os pais da Mina estavam sempre a trazer MAIS livros. Eles compravam, traziam livros da Biblioteca e encomendavam por catálogo. Liam livros ao pequeno-almoço, ao almoço e ao jantar. E quando os pais lhe tentavam ler um livro, ela tapava os ouvidos e gritava: - EU DETESTO LIVROS! Havia provavelmente um só ser no Mundo que mais do que a Mina, detestava livros. Era o seu gato Max, isto porque quando era gatinho caiu-lhe um atlas em cima da cauda. Desde então o gato procurava ficar em cima dos livros em vez de ficar debaixo deles. Uma manhã, depois de ter tirado todos os livros do lavatório para lavar os dentes, Mina foi à cozinha para preparar o pequeno - almoço para si e para o Max. 12. - Max, o pequeno - almoço está pronto! 13. O Max não aparecia. (…) Ela procurou, mas só encontrou livros… Subitamente ouviu… - MIIIIIAAAAUUUUU!!!!!!!! Ela correu para a sala de jantar e lá estava ele, no cimo da pilha de livros mais alta da casa, sem conseguir descer. Esta pilha de livros era formada por todos os livros que os pais estavam sempre a comprar-lhe e que ela sempre se recusava a ler. No fundo da pilha estavam grandes contos ilustrados, do tempo em que a Mina era bebé. No meio havia livros com o alfabeto. Em cima, ao mesmo nível do tecto, havia contos de fadas e histórias de aventuras. Estavam todos cobertos de pó. 19. De início, foi fácil subir porque os livros tinham capa dura. Mas quando a Mina chegou aos livros de capa mole, faltou-lhe o equilíbrio e começou a escorregar. CATRAPUM! Os livros foram pelos ares. À medida que os livros iam caindo iam acontecendo coisas estranhas. Pessoas e animais começaram a cair das páginas e a rebolar pelo chão. Havia príncipes e princesas, fadas, rãs, lobos, os três porquinhos, os trolls… O Humpty Dumpty foi pelos ares e partiu-se ao meio… Havia elefantes, imperadores, avestruzes e uma variedade de macacos emaranhados uns nos outros. E ainda havia coelhos por todo o lado! Eram selvagens, brancos, de chapéu… Mina sentou-se no meio daquilo tudo e ficou surpreendida. - Eu pensava que os livros estavam cheios de palavras, não de coelhos! Era enorme a confusão!" Manjusha Pawagi, A menina que detestava livros

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